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Eu, eu mesmo.

Eu sempre quero aquilo que não tem nome, aquilo que tá impossível, o que está mais difícil? Você também é assim? Espero que não. Eu fico andando por ai essa cara de matuto quando chega na cidade, meio esbabacado, espantado com as coisas que sinto. Descubro, então, que tudo se liquefaz rapidamente, que essa é a característica primeira de todo querer. Crio e desfaço a vontade, depois volto  a querer novamente – a medida que percebo as coisas. Pergunto se amo, do verbo amar mesmo, ou se quero pra mim, como dizem, como propriedade,que já é um substantivo difícil de empregar.

Fico em casa, pensando no que pode ser, porque ela também não ajuda. Não ata, nem desata. Não me dá a benção, nem me joga de vez no inferno, junto aos quais a vida cabe na próxima dose de uísque – acompanhada de solidão. Muita solidão. Pra ela está bom assim. A vejo com seus amores – como ela tem amores! – como sabe amar essa mulher. Ela não tem culpa alguma, feliz dela que sabe amar assim. Feliz dela que acha tudo normal.

Mas e eu que levo tudo a sério, que levo os sentimentos a sério. Eu que não sei dividir, que gosto de me sentir único, que não tenho paciência para competição? Que faço eu com essa vida bandida, meu caro? Eu me isolo. Me escondo na sombra do escorpião que determinou minha personalidade. Passo a andar mirando os sapatos e não o horizonte, como o filho que brigou com a mãe. Como o médico que perdeu o paciente na hora h, bem em cima da mesa de cirurgia. Um paciente jovem, daqueles que não precisava morrer. Ando por aí assim, me sentindo o palhaço que perdeu sua trupe, como o último dos românticos que já perdeu seu lugar ao sol. Como aquele que já não mais quer ver o sol.

Isso tudo acontece e ninguém percebe. Ninguém vê, pois tudo continua no mesmo lugar. O jornaleiro, o mendigo, você chegando em casa às oito. A pergunta educada se está tudo bem que na verdade ninguém quer saber. Nem mesmo a psicóloga que te atende toda terça-feira às sete. Psicólogos só perguntam como você se sente em relação a tudo – mas eles na verdade não querem saber. Sinto que eu queria ser ouvido, ser notado algumas vezes sem precisar dizer muita coisa, é isso que eu sinto, Doutor Freud.

Queria falar a lingua deles, não a língua dos anjos como cantou alguém ai por ai, em outras épocas. Queria falar a língua do “eu não me importo mais”. Mas essa é difícil de aprender.  Impossível eu diria.

No meu reduto eu comando. Faço as verdades, crio as regras. Mando e desmando. No meu reduto sou reconhecido, visto como alguém -não como qualquer um. Mas basta por o pé para fora da toca que o matuto volta novamente, esbabacado – daqueles que falam muito pouco e pode menos ainda. Mais um. Perdido na multidão que parece não respirar, parece não se importar. Fico vagando entre o quintal dos corações imaginando como as pessoas são na verdade. Fico imaginando como são suas gavetas ou o que guardam na cabeceira da cama. Fico imaginando se ela realmente me ama.

Todo esse parágrafo se traduz na insegurança. Como bater uma penalti no jogo final, como fazer a primeira tatuagem, como rever alguém como se fosse a primeira vez. Insegurança de não conseguir ler os sentimentos. Esbabacado novamente, inutilizado novamente. Letargia de domingo a tarde, entende?

Volto para casa depois de comprar o pão. Nada mudou. As paredes continuam no mesmo lugar, a tevê não se cansa de berrar e o silêncio vai corroendo a alma. Santo Deus – eu sou tão carente assim? Penso.  Sim, sou, confirmo. Penso na urgência da idade, no medo de morrer, da vida passar e nada acontecer, dela realmente conhecer alguém (ou reencontrar) e não querer mais me ver.

Deito na cama, me sentindo um defunto sem velório. Sem vela, sem flor, sem idade. Morreu, acabou – e não há ninguém para chorar.

Biografias, The Beatles e a Bravo!

Por Fabricio Gimenes

Acabei de chegar, com muito receio, à última parte da biografia “John Lennon – A vida”, de Philip Norman (abaixo). O livro é simplesmente excelente. Tanto pelas inúmeras histórias, quanto pelo belíssimo texto (muito bem traduzido) de Philip. O fato é que, já há algum tempo, torcia o nariz para biografias pela simples razão de que, do meu ponto de vista, não haveria isenção no texto. Seriam elas (as biografias), em sua maioria, tendenciosas. E realmente são.

Prova disso foi minha primeira visita a este campo. Aventurei-me lendo a história de Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Gostei, apesar do fino trato humorístico dado às desventuras em série de Tim em relação ao não comparecimento aos shows, por exemplo. Li, então, a semi-biografia de Ricardo Kotscho (Do golpe ao planalto – uma vida de repórter), escrita pelo próprio. Histórias sempre fantásticas e inspiradoras em tanto tempo de profissão (sobretudo nesta profissão). Mas a isenção foi posta de lado (mais uma vez) , afinal, estamos falando de uma autobiografia.

Na história de John Lennon a cena se repetiu. Mas em uma baixíssima escala. Tanto é verdade que, muito do que eu cultuava sobre o finado, foi colocado em xeque através das histórias narradas por Philip. Tanto que nem Yoko Ono gostou muito do que foi escrito (desculpe, Yoko). Outra verdade impressionante é a riqueza de material e detalhes apresentados no livro. Entrevistas e declarações de  Bob Gruen, Elton John, Tia Mimi, Yoko e tantos outros.

O livro traz as diversas faces de Lennon. Desde o liverpudliano normal, capaz de vivenciar a day in the life, até o mais louco e psicodélico beatle viajando na onda do LSD e vendo marmalade Skys. Tudo isso muito bem linkado ao contexto histórico de cada época vivida. Um capítulo à parte é reservado para as pequenas histórias sobre cada coadjuvante, que ajudam a entender e digerir melhor as ações e reações de John. Pode parecer piegas ou ingênuo da minha parte, mas a publicação traz muito material não divulgado e passa a limpo histórias mal contadas que se propagaram desde a morte de John.

A grande chatisse de se ler biografias é que você já sabe que a personagem morre no final. Mas até lá, a leitura é garantida e realmente acrescenta algo novo e exclusivo sobre a história dos fab four. Aliás, aí é que está o ponto crucial. Exclusividade. No final do mês de outubro a revista Bravo! publicou uma edição especial sobre a história do quarteto de Liverpool (ao lado). A história é dividida em alguns subtemas interessantes como “Impacto no show business”, “Revolução nas letras e músicas” e “Influência no comportamento”. Contudo (em tudo há sempre um porém), nada de novo. Nadica de nada. As mesmas histórias, as mesmas fotografias, os mesmos discos. É pouco? Não, não é. É bem escrito? Mais do que bem escrito. Mas a verdade é que quem lê uma biografia como a de John fica meio entendiado com os periódicos comuns lançados por aí.

Essa história toda me fez perceber, realmente, como o mundo, tal qual aconteceu em meados de 60, está carente de bons moços. De bons garotos. De esperança e outros adjetivos similares. Perdidos nessa realidade antibiótica os Beatles parecem renascer para renovar a fé de cada nova geração, de cada novo(a) adolescente que surge. A cada nova playlist onde estão inclusas  “I feel fine”, “Can’t buy me love” o olhar volta a brilhar. O mais engraçado é que, em contrapartida desse lado bonzinho e até ingênuo representado por Lennon, McCartney, Harrison e Starr, estão também os cabeludos ácidos e críticos, prontos para a explosão, tal qual se vê em canções como “Revolution”, “I am the walrus” e “Nowhere man”.

Enfim, seja pela esperança no amor ou pelo desejo de mudança, os Beatles continuam vivos. E eu sigo por aqui, entre biografias, Bravos!, Guitar Hero e discos remasterizados. Brian Epstein deve estar se contorcendo no caixão neste momento. Fazer o quê? A indústria da música não pode parar.

Crônica de botequim: O mito do garçom

Por Fabricio Gimenes

garçonsNenhuma outra figura na história mundial conhece tão bem os segredos e traquejos da noite quanto ele, o Garçom. Também conhecido como chefia, capitão, amigão, brother, doutor, mestre, camarada. Ele é seu, meu, nosso amigo. Conhece, melhor do que ninguém, a ficha de cada bebum ou dama solitária do bar.

O Garçom já foi imortalizado pelo cinema e pela cultura popular. Ele é o responsável pelo alívio imediato ao final do dia. Muitas vezes é cúmplice de mentiras deslavadas e companheiro de profundos e sombrios porres. É ouvinte atento de desventuras amorosas, competentíssimo psicólogo entre uma cerveja e outra. Todo Garçom é um baú repleto de histórias irreverentes e inimagináveis.

Bom Garçom te chama pelo nome e pergunta “O de sempre?”. Não espera a gente chamar para trazer mais uma. Sabe muito bem que a saidera dura pelo menos três rodadas. Pelo menos.

O Garçom está presente no cotidiano. É fotógrafo, cupido e produtor musical. Na maioria das vezes sempre tem uma piada ou comentário sarcástico na ponta lingua. Vive correndo alimentando a alegria de quem celebra a noite. O Garçom é o símbolo máximo da cortesia e da camaradagem. E é ele que muitas vezes leva a culpa no dia seguinte… pobre Garçom.

Existem vários tipos de Garçons. Os simpáticos que estão sempre de alto astral. Estes possuem uma energia incomum e não apresentam as tão cotidianas olheiras que os próprios clientes trazem em face. Exite também o Garçom gozador (sem trocadilho), que vive fazendo piada com os clientes, comenta o futebol e sempre te sacaneia quando seu time perde. Dá palpites atéHá o Garçom mau-humorado (mas que o é somente para fazer pose). Basta perguntar onde está o limão da capirinha que ele te manda ir buscar no Horti-fruit. Existe o Garçom gago, o ligeirinho, o bom de memória e o que tem amnésia. Exite até mesmo o invisível – que sempre se materializa com outra cerveja sobre a mesa.

Independente do estilo do bar ou do cliente, sempre haverá um Garçom a postos pronto a animar a noite (ou o dia!). Psicólogo, amigo, descontraído, cansado, imbatível. Skol ou Brahma, Bohemia ou Antártica. Não importa. No final das contas, o Garçom é um patrimônio público, espectador dos melhores e piores momentos de nossas vidas. É um fiel mordomo. Em todo botequim que se preze, o Garçom é mesmo um mito.

O Samba de Marisa

Por Fabricio Gimenes

Marisa Monte - Fotos: Divulgação

Marisa Monte - Fotos: Divulgação

Ela já quis ser cantora de ópera quando era pequena, mas já criança descobriu a magia do samba.  Maria de Azevedo Monte estava mesmo predestinada aos palcos e ao fino trato da cultura popular. Filha do ex-diretor cultural da Escola de Samba Portela, Marisa (íntimo!) lançou há algum tempo o belíssimo álbum “Universo ao meu redor” – uma genial mescla entre o passado e o presente do samba.

Em “Universo ao meu Redor”, Marisa surpreende na postura e suavidade. Onírica e fluida ela desliza pela natureza, pelo amor e pelo cotidiano do samba. Fruto de um fabuloso trabalho de entrevistas com a velha guarda da Portela. O disco é obrigatório no currículo de qualquer amante da música.

A produção talvez seja resultado do tempo de estrada. Nomes conhecidos já passaram por sua carreira, e vice-versa. Nelson Motta, Lula Buarque de Holanda, entre outros, a acompanharam enquanto esta era tratada apenas como uma revelação eclética. Hoje, consolidada e imaculada, artista de poucos discos e longas turnês, “Universo ao meu Redor” tornou-se um capítulo à parte em sua biografia.

Intocável

Reza a lenda, de segura fonte, que Marisa é intocável. A artista sustenta a condição de Diva antes, durante e depois de qualquer trabalho. Talvez o segredo de sua suavidade vocal esteja, exatamente, na concentração anterior a cada gravação.

É senso comum a fama do, digamos, estilo de vida da maioria dos músicos brasileiros. Muitas vezes boemios, chegados em “ervas naturais” e, quase sempre, descontraídos – para dizer o mínimo (mínimo mesmo!).

Muitos artistas, mesmo na condição de protagonistas, se juntam à algazarra natural. Exímios exemplos é o trato dado por Tim Maia ao seus músicos. Não faltam também histórias de Gilberto Gil, Caetano e por aí vai. Mas Marisa é Diva. Não se “mistura”. Seja num estúdio em plena final de copa do mundo, ou em simples ensaio, a postura é a mesma. Antagônica à “baderna”.

Verdade ou mentira, realmente não importa. O que importa é o samba, e isso Marisa tem de sobra!

Para Ouvir:

Universo ao meu redor

www.marisamonte.com.br

 

Para Ver:

Infinito ao meu redor

Hotsite do DVD

Curtas: Nova sessão

Acabei de criar aqui no blogue uma sessão dedicada somente para as crônicas que faço. Aos poucos vou postando o material da gaveta.

Para acessar, basta selecionar a opção no menu superior.

[]’s Fabricio Gimenes

Confissões do poder

– Tenho saudades daquele tempo. Mais ou menos na era Gratz. Aquilo era uma farra! Aqui no Espírito Santo eu não conheço um só político que não tenha saudades daquela época! Fez, então, uma pausa. Olhou distante, como quem busca lá do fundo da memória as lembranças dos momentos felizes. Iniciou novamente a narrativa num tom mais sereno. Para você ter uma idéia o tal “paraíso fiscal” nas manchetes dos jornais de hoje foi criado por nós. Nós inventamos tudo isso! Nada era difícil ou impossível demais. Nós éramos os “Reis da cocada preta”…

– Eu posso imaginar.

– Não, não pode. Você pode imaginar putas de luxo de quatro para você bem no meio do expediente?  Putas perfeitas, dessas “capas de revista”. Todas pagas com o dinheiro público. Inclusas nas “despesas de viagem”. Esse escândalo recente sobre a farra das passagens, esse é um esquema muito, mas muito antigo. Eu mesmo, certa vez, peguei um avião só para dar uma foda em São Paulo durante a tarde… à noite já estava de volta para contar aos amigos. Por que você sabe, nada disso tem graça se não tiver com quem dividir, né? Abriu os braços quase teatralmente.

– Mas toda essa farra, ninguém percebia nada?

– Percebia, claro. Mas quando percebia, entrava para o esquema também. Cada um tinha a sua fatia do paraíso. Naquele tempo a gente vivia bêbado de uísque. E isso era, na verdade, era a perdição. Quando estávamos “de fogo” a gente fazia muita loucura. Tem muita história que se fosse contada acabaria coma vida de muita gente. Casamento, imagem… Tudo iria para a casa do caralho se visse a público.

– Conte uma história dessas, então.

– ha ha ha… “Vocês” são terríveis. Acendeu um cigarro e tragou profundamente de olhos bem fechados. Assumiu um tom vaidoso, pois, na verdade, se orgulhava de ter escapado impune de todas essas proezas. O olhar parecia cada vez mais perdidos na lembranças envoltas pela névoa da nicotina. Recobrou o fôlego e prosseguiu. Vamos lá, então. Essa já faz muito tempo e eu vou te contar para você ter uma noção de como o uísque e o dinheiro subiram à cabeça de todos.

– Certo. Confirmei numa rápida piscada de olhos.

– Estávamos todos em uma audiência pública num desses fins de mundo aqui do Estado. Fazia um calor do caralho, eu transprava feito um porco. Mas, apesar disso, a gente queria ajudar aquele povo. Na época, se não a memória deste velho não estiver enganada, íamos construir uma ponte e asfaltar um pedaço do vilarejo. Pra ajudar as pessoas, sabe. Pois bem, acabou a tal audiência e entramos no carro com ar condicionado. No caminho de volta para Vitória o “fulano” ligou para as amigas dele combinando um uisquezinho na cobertura dele. A gente foi pra lá e ficou “de fogo”. Todo mundo estava tão doido que pegamos um avião para São Paulo. Eu não me lembro por qual razão, exatamente. Só sei que de lá, fomos parar França! Fomos todos de primeira classe. Tudo regado à muito uísque e tratamento Vip, afinal, éramos políticos e as pessoas ainda tinham algum respeito pela gente. Fizemos uma farra danada por lá. Eu acordei no outro dia e perguntei: Mas que porra de lugar é esse? Não tinha a mínima idéia do que havia acontecido. Todos os quatro estavam muito doidos… Além do uísque tinha os dois que cheiravam. Aliás, muita gente cheirava naquela época. Dizem o Collor enfiava supositório de cocaína no cú durante a campanha eleitoral. Finalizou abrindo uma gargalhada soluçante.

– É difícil acreditar, comentei tentando conter a perplexidade. Mas realmente tudo isso existiu. Você está falando, não é? E o dinheiro, havia muito dinheiro vivo ou era tudo com os cartões?

– O dinheiro brotava vez ou outra. Não era nada regular, não. De vez enquando “cicrano” aparecia com um saco de dinheiro e dizia: “Pega aí um bocado que eu preciso ir embora logo”. E a gente pegava. Não sabia de onde vinha, mas a gente pegava e sabia que nada ia acontecer. No outro dia, quando nos encontrávamos no almoço eu perguntava: “Doutor, doutor, não tem outro saco daquele pra gente não?” e o “cicrano” respondia: “ha ha ha… Agora acabou. Mas qualquer hora aparece de novo”.

– Vocês não se sentiam culpados por roubar toda essa grana?

– Culpados? De maneira alguma. O Estado tinha e tem muita grana. E de mais a mais, a gente roubava, mas ajudava muita gente. Roubava mas promovíamos melhorias para o povo. Muita coisa hoje em Vitória foi construído na nossa época. Era um pouco pro povo e outro pouco “pra hipoteca”. Às vezes a gente era roubado também. Não existe raça pior do que o tal “laranja”. No final, eles sempre passam a te extorquir. E você tem que pagar. Vai fazer o quê? Matar o filho da puta? Dava vontade… mas não era certo.

– Você disse que sente saudades dessa época. Hoje não é assim?

– Hoje tudo está fodido. Tudo tem que ser muito bem feito. Tem a internet, tem o contribuinte que tá sempre em cima… a porra da “opinião pública”. Falava agora aos espasmos, com afeto, revolta e indignação. O dinheiro hoje é muito vigiado. Muita gente consegue fazer as sacanagens, mas leva muito mais tempo. Outra coisa que acabou com a gente foi a loucura. Uísque, cocaína, putas… a gente perdeu o foco.

De uma empoeirada maleta ele retira um livro igualmente antigo. Entre as páginas saca algumas fotografias da época. Celebridades, autoridades em colossais suítes munidos de lavados sorrisos. Os rostos nem parecem os mesmos. O silêncio toma conta do ambiente.

– Pois é, meu filho. A farra acabou. A gente hoje vive por aí, de pequenos golpes públicos com medo da “casa cair”. E isso é tudo que nos resta.

Percebo, então, que a despedida é iminente. Despeço-me deixando uma garrafa de uísque sobre a mesa. Atrás de mim, fecha-se a porta da suíte desbotada e repleta de decadência e solidão. Lá fora a chuva invade a noite. Penso antibioticamente: “O pulso ainda pulsa”.

Quero ser Jack Nicholson!

Ele detém o estigma de perverso por conta de seus papéis no cinema, mas não deixa absolutamente nada a desejar nas comédias que já fez. É um velho safado que “ainda não colocou em prática todas as fantasias que já passaram pela sua cabeça vazia”. Senhoras e Senhores: Jack Nicholson! Por Fabrício Gimenes 
Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61. Foto: Mathew Rolston
“Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61.” Foto: Mathew Rolston

 Bem do alto da monotonia de qualquer segunda-feira à noite, procuro entre a pilha de revistas alguma edição mais antiga (sempre leio revistas antigas). Entre Playboys, Vips e Superinteressantes, retiro, então, a edição 01 da Rolling Stone Brasil (outubro 2006). Na capa, bela capa devo dizer, está Gisele Bundchen  estampada com todo mérito como “A maior popstar brasileira”. Há também uma excelente matéria sobre Bob Dylan. Mas, a que salta aos olhos no primeiro instante é a reportagem com Jack Nicholson: Confissões de um velho safado.

Na ocasião da reportagem, assinada pelo jornalista Erik Hedegaard, Jack Nicholson estava prestes a estreiar o eletrizante longa Infiltrados, de Martin Scorsese. Jack, na ocasião, retornava ao que parece ser seu verdadeiro habitat: Personagens maus!

Entre um cigarro e outro, Jack revela sua personalidade hedonista, intimamente ligado ao sexo e tudo que pode compor tal cenário. Erik “arranca” dele ótimas declarações. Como no trecho a seguir:

(…) E, finalmente, temos as palavras preferidas de Jack para animar seu papo normal, do dia-a-dia, sendo que duas delas são pussy [xoxota] e cunt [boceta]. 

 “Adoro essas palavras!”, ele quase berra. “Quer dizer, no últimos tempos, poderia até perguntar para alguém: ‘Bom, olha, você sabe por que eu digo cunt ou pussy ou pookie [fofinha]?’ Mas gosto de poder dizer coisas como: ‘Cunt é uma sigla’. ‘Para quê?’ ‘Para can’t-understand-normal-thinking [não consigo entender o raciocínio normal].’ He, he, he. Mas, bom, claro que só invento isso para fazer piada. Mas o negócio é que simplesmente gosto dessas palavras, por acaso.”  

Ou neste trecho: 

“Faz um bom tempo que não estou comprometido, então tenho companhias variadas. Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61.”
  
“Sessenta e um?”

 “É, sou bonzinho com minhas amigas.” 

A entrevista prossegue com Jack divagando sobre o sexo atualmente e sobre o pânico de não ter realizado todas as fantasias que já se passaram pela sua cabeça vazia.

Jack Nicholson

Em verdade sempre me imaginei com o triplo da idade que hoje tenho ao escrever este blogue. Há algum tempo já cultuava admiração pela cara de maluco de Jack e pelos filmes que já o vi fazendo. Hoje na casa dos 70, o cara possui a verdade e a mentira anunciada no olhar. Detém o riso soberbo e sacana que seduz até mesmo as mais gélidas mulheres (Alguém tem que ceder)  e, para completar, possui o estilo de quem viveu as melhores épocas das melhores maneiras possíveis. Eu pergunto, por que não Jack Nicholson?

Existem também outras figuras, mais ou menos na mesma idade, igualmente inspiradoras. Mas todos inspiram à sua maneira, quase uma coisa de nicho. Jack, tanto na vida real, quanto em seus filmes, traz a efervescência do urgente contraposto com a calma de quem sabe muito bem o que, como e quando algo deve ser feito. Hoje tudo ficou claro. Eu, realmente, quero ser Jack Nicholson!

Para conferir toda a reportagem realizada pela Rolling Stone Brasil com o velho safado, basta clicar aqui

Sobre micaretas e cultura

Por Fabricio Gimenes

Estamos em outubro. Acabamos de entrar no último trimestre de 2009 – um ano repleto de rupturas e mudanças. No meio de todo esse caos informativo e as mudanças acontecendo em velocidades cada vez maiores, a dúvida fica no ar: Por qual razão as micaretas ainda existem?

 Chicleteiro convicto

Chicleteiro convicto

 Em 2007 estrevistei o blogueiro e escritor, Francisco Grijó, do Ipsis Litteris. Veja o que disse o escritor dois anos atrás:

As pessoas precisam entender que um quarteto de cordas no Carlos Gomes merece a mesma promoção – se não maior – que um show da Ivete Sangalo. Um show da Ivete movimenta nossa capital, 400 mil pessoas. Enquanto que não há uma mobilização da própria mídia a esse respeito para um quarteto de cordas ou para uma banda de Jazz. Egberto Gismonti esteve na FAFI, haviam 70 pessoas. Um dos maiores músicos do mundo para 70 pessoas. Agora Babado Novo, Calcinha Preta, MC Sapão, eventos na Pedreira, sempre lotados. Mas aí há um dado interessante, existe um público que está afim de entretenimento – sair com as garotas e pegar os rapazes – e existe um público que busca alguma coisa de verdade. Este, é bem menor. É este público que iria ao Centro da cidade assistir ao Café Literário, é o público que vai ao Centro assistir um quarteto de cordas. Agora, compensa economicamente este público? É um público muito pequeno.

Disse mais:

Este tipo de evento, o qual eles chamam de “evento cultural”, não é evento cultural. Trata-se de música de fundo para as pessoas pularem e se beijarem. Se tirar a cantora e colocar apenas caixas de som, não fará diferença.

Dois anos se passaram, eu pergunto, o que mudou? Quase nada eu respondo. Se for pensar, acho que as coisas mudaram um pouquinho, mas para pior. Ora, hoje Vitória inaugura um evento com nada menos que 10 horas de axé, pegação e alienação. Como o slogan mesmo do evento adverte, “isso você nunca viu”.

Pelas ruas, um desfile de adolescentes e adultos vestindo aquelas temerosas camisetas, os tais “abadás”. Não há bem uma distinção entre ricos e pobres. Todos estão iguais, nivelados. E estes cidadãos são os mesmos que depois criticam nosso presidente, reclamam da gestão e distribuem exacerbadas exclamações nas mesas de bar.

Sinto-me meio impotente frente a essa realidade. Mas sigo à risca uma regra aprendida com D.Corleone: “Nunca discuta com um idiota”. E hoje, em Vitória, há uma porção deles por aí.

VOLTAMOS!

O São Botequim voltou. Depois de alguns meses parados, decidimos reabrir o boteco. O período serviu para uma boa reforma e o acúmulo de muito material bacana que iremos postando gradativamente!

Redação São Botequim

Redação São Botequim

Agradecemos a preferência. Sente-se e peça uma cerveja gelada, pois a prosa vai (re)começar. São Botequim – Política, cultura & Boemia!

No direction home

Por Fabricio Gimenes

Assisti durante todo o final de semana o documentário “No Direction Home”, um filme de Martin Scorsese sobre a vida de Bob Dylan. O disco ficou lá, no DVD player, por todo o final de semana. Entre uma pausa e outra fui saboreando a história desse músico que eu nunca consegui compreender. Nunca entendi, por exemplo, o grunhido viceral de suas canções, o porquê aquela daquela voz nasalada fazer tanto sucesso? Isso nunca fez muito sentido para mim.

Like a complete unknown

"Like a complete unknown"

Como já era de se esperar logo na primeira cena me identifiquei. Dylan fala sobre a sensação de sentir-se um estrangeiro. De não saber para onde voltar, ou mesmo para onde ir. Minha veia beatnick pulsou forte frente à película. Durante todo o filme fui absorvendo o sentimento de Dylan. O fato de não pautar sua vida numa meta imutável – dinheiro, fama, etc. – e sim, vivê-la pela simples razão de sentir-se bem. Pela unívoca necessidade de dar vazão aos sentimentos. O que vem em seguida é consequência disso. Talvez por isso sua música tenha esse aspecto cru, não lapidado, algo que possui uma certa “ingenuidade” e pureza, sendo entregue a quem ouve da mesma forma como nasceu. Tais canções  são como aquele certo sentimento que não dá pra disfarçar, não dá para evitar ou esconder.

É interessante, também, ver as entrevistas prestadas por Dylan aos vorazes jornalistas da época. O cantor parece sempre distante e até desinteressado em todo aquele circo.

O fato é que Dylan apareceu numa época carente de certos porta-vozes, onde a música atingia mais que as paradas de sucesso – despertava sentimentos e emoções. Não que o próprio fizesse questão disso. Mas pela sua sinceridade ao fazer música, tornou-se um. Lembro do que o falecido escritor Norman Mailer, que vivenciou essa mesma época, disse certa vez numa entrevista pouco antes de partir para o lado de lá: “Antigamente a literatura era como um chamado”. Tanto eu, quanto o velho Norman sentimos falta disso. Cabe aqui perguntar: E hoje, qual é o nosso chamado?