Doutor, me receita um prozac?


E é assim que acontece:  exatamente como foi sacramentado a acontecer. Humanos que somos, daqueles bem errantes e mal acostumados com as mordomias da vida moderna, a gente criou uma estranha mania de sempre dizer que isso ou aquilo não era pra ser assim. Porque eu pensei assim, você pensou assado e por aí vai. A ladainha se estende noite adentro até o último gole. Com todo esse verniz é fácil perceber como as possibilidades de felicidade são mesmo egoístas quando o sujeito em questão é o tal homo sapiens, e como, claro, as possibilidades de infelicidades nunca são em primeira pessoa.  Quem paga a conta desse desarranjo todo quase sempre é o terceiro, aquele mesmo, de boa fé.

O fato é que as pessoas andam ligando demais para todas essa coisa do que deve ou não acontecer. Querendo prever demais o futuro nas bolas do presente.  Ora, já num passado bem distante o caquético Nostradamus fazia profecias sobre o futuro. Mas a verdadeira verdade por trás de todo o alvoroço mitológico é que nem os primeiros descompensados que viram e ouviram tudo o que ele escreveu não puderam conferir se o velhote estava certo. Nem ele mesmo pôde saber. Se pensarmos que a vida é um verbo em eterno gerúndio, de que adianta toda essa projeção? É melhor parar com essa síndrome de Nostradamus, deixar essa coisa toda de projetar com Freud e sua turma. Vamos lá, Beth, vamos jogar um pouco de água nesse seu castelo de areia e criar algo novo com o que sobrar.
Não, mesmo que pareça, esta não é uma crônica de auto-ajuda. Eu não escreveria isso para te ajudar. Se fosse para te ajudar, faria uma oração, uma prece, uma reza. Até acenderia uma vela. Mesmo que fosse de sétimo dia. Mas acontece que, ultimamente, percebo muita gente perto de mim com essas paranóias que a contemporaneidade (eita, palavrinha intelectual) tem proporcionado. Ficam todos lá, vidrados no F5 do teclado à espera do próximo tweet. Apostando sobre o próximo paredão (sim, o Big Brother sempre volta). E isso muito tem me incomodado.
É como disse o poeta Vinícius de Moraes “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu”. Todo santo dia pessoas ao redor do mundo  jogam no Google seu futuro. Praticam relgiosas consultas a horóscopos em busca de uma reposta, um norte, um sul, whatever works... Aceitam conselhos, vão a pálidos consultórios psiquiátricos em busca de respostas para perguntas que já se perderam. E tudo isso acontece por uma única e ingrata palavra: insegurança. Vá lá, é muito difícil conviver com a própria consciência quando a gente não tem em quem colocar a culpa. A insegurança é mesmo um caco de vidro sob a pele. E eu tenho uma coisa para te falar: sangre um pouco.

É preciso entender que todas essas coisas que geralmente as pessoas tem medo de sentir, são, na verdade, tudo o que nos deixa vivo. Sentir raiva de algum desafeto, ter saudades daquele canalha ou daquela desalmada que te partiu o coração, dar uns tapinhas entre quatro paredes… ôh, minha gente, por que tanto pudor? Pense bem, os caras que você realmente admira estavam pouco se fodendo para isso… por que não usar o verbo (foder) ao seu favor? É só uma sugestão de quem realmente está com o saco bem cheio de ouvir lamúrias de quem simplesmente adora tecer problemas para se ocupar, se sentir importante, ter atenção ou algo do tipo. Sério, isso é bem irritante e eu não sou a Fernanda Young.

Se for parar para pensar, é muito legal essa coisa de escrever em primeira pessoa. A gente escreve o que quer e você aí não tem nem como retrucar. Por esta razão, aproveite as suas pequenas alegrias. Comece a disrcursar sobre você e não sobre os outros.  Curta aquela ereção matinal, o dia sem cigarro e aquele prazo que você conseguiu cumprir. Essas vitórias que são só da gente mesmo.  Os desafetos da vida costumam aparecer bem grandiosos e imponentes, mas é tudo uma grande bobagem. Eles na verdade são a sua imaginação fantasiando sombras contra a luz. Fora isso, não tem muito mais que eu possa dizer sobre. Para todas as outras coisas é só você tomar isso aqui, um comprimido por dia e vai ficar tudo bem. Eu garanto.

 

 

 

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