Formato mínimo, mesmo

Todo mundo é moderno. Todo mundo adora forno microondas, chuveiro quente e acessar o Google. Todo mundo gosta de filmes em 3D, novos artistas da MPB e liberdade de escolha. Adoramos a nova maneira de sentir, a nova maneira de vestir, a nova maneira de viver. Mas, para quê? Todo mundo adora, na verdade, é achar que pode.

A gente acha que pode ser feliz. Hoje cada um sabe cuidar do próprio nariz. A gente sabe muito bem de sair por aí, com cara de quem tem o controle. O cliente tem sempre razão, o internauta dita o conteúdo, eu te mando para o paredão. Eu posso ser livre (assim), pensamos. Cultivamos essa doce ilusão.

O teatro, a música, o cinema, a verdade é que, de uma maneira geral, tudo caiu muito na banalização. Infelizmente, para pessoas como eu – que adoram algo que realmente seja extraordinariamente bom, colossalmente grande, incontestavelmente verdadeiro -, o mundo de hoje não serve. Não serve ser fã de uma banda que só você e mais dois amigos gostam. Não cabe ter que esmiuçar a internet atrás de alguém que diga o que você pensa, não servem as pequenas coerências, os pequenos discursos.

Essa megalomania crônica não cabe nos pequenos (minúsculos) apartamentos, muito menos nos pequenos sentimentos. Saudadezinha, amorzinho, solidãozinha. Onde foi parar aquela saudade de “Pedaço de mim”, os amores de Shekepeare? Onde está o mal do século, afinal? Não existe mais. Acabou. Sumiu. Parou de ser produzido.

O que temos hoje são belas capas de revistas, “felicidade” para dar e vender, pague dois, leve três. Crédito ou débito, senhor? A “felicidade” hoje acontece por repetição, não é mais um sentimento, mas se tornou um hábito. Um hábito banal, cultivado a cada nova liquidação. Tv de plasma, poltrona reclinável e porteiro 24h. Onde estão seus filhos agora? Para mim o que há de mais moderno, essa tal felicidade, ainda é um sonho muito antigo. Mas foi mais fácil mudar seu conceito, do que correr atrás dela.

Ninguém liga mais para um “eu te amo”. Porque ligar, isso é dito a todo momento na tevê? Virou “bom dia”. Ninguém mais liga para o ato de sentir de verdade. Falta sensibilidade em toda essa sinceridade que é escancarada todos os dias. Falta sensibilidade naquilo que é dito “do fundo do coração”. A bem da verdade, tudo ficou muito fácil. Construção e descontrucão – dez passos para ser feliz.

Tudo isso soa, para mim, como uma grande ânsia incontida. Como um sinal espasmático, como a agonia de alguém que está prestes a morrer. Tudo isso sinaliza nossa grande carência. Num mundo de pequenos estímulos, pouco tempo e pequenos e banais prazeres, circulam por ai pessoas cada vez menores.

Nesse mundo de coisas pequenas, de gente pequena, algum saudosismo cabe em qualquer lugar, até mesmo numa crônica como esta. Bem pequena.

3 Responses to “Formato mínimo, mesmo”


  1. 1 Daniel Mundim abril 1, 2010 às 6:21 pm

    Foda-se a modernidade. Um dos maiores orgulhos que o ser humano deveria ter é a capacidade de amar. E ninguém poderia renegar isso, nenhum programa de TV, nenhuma roupa nova, nenhum “prazer” passageiro. Quando as pessoas perceberem que o brilho de um pôr-do-sol é mais intenso e grandioso que o brilho da “Samsumg Led TV”, talvez teremos uma saída. Em tempo, eu amo dizer “eu te amo”, especialmente para quem o digo.

  2. 2 Nayana abril 2, 2010 às 12:08 am

    Fato; cada dia mais raro alguém que prefira assistir Before Sunset à Avatar, ou ouvir Oswaldo Montenegro em vez de Lady Gaga…

  3. 3 Ana Carolina Castro abril 4, 2010 às 11:00 am

    Texto muito bom de ler, fluido, e o conteúdo entao.. parece uma ânsia louca mesmo que as pessoas adquiriram nao sei porque, nao sei daonde. Infelizmente. E quem nao adquiriu, fica taxado como careta, sonhador, alienado (mesmo??).
    E sobre o comentário do Dan..
    (Ana nao pode escrever no momento, porque está esparramada no chao, toda derretida)


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