Eu, eu mesmo.

Eu sempre quero aquilo que não tem nome, aquilo que tá impossível, o que está mais difícil? Você também é assim? Espero que não. Eu fico andando por ai essa cara de matuto quando chega na cidade, meio esbabacado, espantado com as coisas que sinto. Descubro, então, que tudo se liquefaz rapidamente, que essa é a característica primeira de todo querer. Crio e desfaço a vontade, depois volto  a querer novamente – a medida que percebo as coisas. Pergunto se amo, do verbo amar mesmo, ou se quero pra mim, como dizem, como propriedade,que já é um substantivo difícil de empregar.

Fico em casa, pensando no que pode ser, porque ela também não ajuda. Não ata, nem desata. Não me dá a benção, nem me joga de vez no inferno, junto aos quais a vida cabe na próxima dose de uísque – acompanhada de solidão. Muita solidão. Pra ela está bom assim. A vejo com seus amores – como ela tem amores! – como sabe amar essa mulher. Ela não tem culpa alguma, feliz dela que sabe amar assim. Feliz dela que acha tudo normal.

Mas e eu que levo tudo a sério, que levo os sentimentos a sério. Eu que não sei dividir, que gosto de me sentir único, que não tenho paciência para competição? Que faço eu com essa vida bandida, meu caro? Eu me isolo. Me escondo na sombra do escorpião que determinou minha personalidade. Passo a andar mirando os sapatos e não o horizonte, como o filho que brigou com a mãe. Como o médico que perdeu o paciente na hora h, bem em cima da mesa de cirurgia. Um paciente jovem, daqueles que não precisava morrer. Ando por aí assim, me sentindo o palhaço que perdeu sua trupe, como o último dos românticos que já perdeu seu lugar ao sol. Como aquele que já não mais quer ver o sol.

Isso tudo acontece e ninguém percebe. Ninguém vê, pois tudo continua no mesmo lugar. O jornaleiro, o mendigo, você chegando em casa às oito. A pergunta educada se está tudo bem que na verdade ninguém quer saber. Nem mesmo a psicóloga que te atende toda terça-feira às sete. Psicólogos só perguntam como você se sente em relação a tudo – mas eles na verdade não querem saber. Sinto que eu queria ser ouvido, ser notado algumas vezes sem precisar dizer muita coisa, é isso que eu sinto, Doutor Freud.

Queria falar a lingua deles, não a língua dos anjos como cantou alguém ai por ai, em outras épocas. Queria falar a língua do “eu não me importo mais”. Mas essa é difícil de aprender.  Impossível eu diria.

No meu reduto eu comando. Faço as verdades, crio as regras. Mando e desmando. No meu reduto sou reconhecido, visto como alguém -não como qualquer um. Mas basta por o pé para fora da toca que o matuto volta novamente, esbabacado – daqueles que falam muito pouco e pode menos ainda. Mais um. Perdido na multidão que parece não respirar, parece não se importar. Fico vagando entre o quintal dos corações imaginando como as pessoas são na verdade. Fico imaginando como são suas gavetas ou o que guardam na cabeceira da cama. Fico imaginando se ela realmente me ama.

Todo esse parágrafo se traduz na insegurança. Como bater uma penalti no jogo final, como fazer a primeira tatuagem, como rever alguém como se fosse a primeira vez. Insegurança de não conseguir ler os sentimentos. Esbabacado novamente, inutilizado novamente. Letargia de domingo a tarde, entende?

Volto para casa depois de comprar o pão. Nada mudou. As paredes continuam no mesmo lugar, a tevê não se cansa de berrar e o silêncio vai corroendo a alma. Santo Deus – eu sou tão carente assim? Penso.  Sim, sou, confirmo. Penso na urgência da idade, no medo de morrer, da vida passar e nada acontecer, dela realmente conhecer alguém (ou reencontrar) e não querer mais me ver.

Deito na cama, me sentindo um defunto sem velório. Sem vela, sem flor, sem idade. Morreu, acabou – e não há ninguém para chorar.

2 Responses to “Eu, eu mesmo.”


  1. 2 Grijó março 21, 2010 às 3:39 pm

    Lembrou-me um choroso – e por isso, excelente – sopro de jazz. Algo como um lamento no sax tenor. Alguma coisa de charlie Rouse; outra de Hank Mobley.
    Valeu, camarada.
    Estás a escrever bem.

    Grijó


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