Confissões do poder

– Tenho saudades daquele tempo. Mais ou menos na era Gratz. Aquilo era uma farra! Aqui no Espírito Santo eu não conheço um só político que não tenha saudades daquela época! Fez, então, uma pausa. Olhou distante, como quem busca lá do fundo da memória as lembranças dos momentos felizes. Iniciou novamente a narrativa num tom mais sereno. Para você ter uma idéia o tal “paraíso fiscal” nas manchetes dos jornais de hoje foi criado por nós. Nós inventamos tudo isso! Nada era difícil ou impossível demais. Nós éramos os “Reis da cocada preta”…

– Eu posso imaginar.

– Não, não pode. Você pode imaginar putas de luxo de quatro para você bem no meio do expediente?  Putas perfeitas, dessas “capas de revista”. Todas pagas com o dinheiro público. Inclusas nas “despesas de viagem”. Esse escândalo recente sobre a farra das passagens, esse é um esquema muito, mas muito antigo. Eu mesmo, certa vez, peguei um avião só para dar uma foda em São Paulo durante a tarde… à noite já estava de volta para contar aos amigos. Por que você sabe, nada disso tem graça se não tiver com quem dividir, né? Abriu os braços quase teatralmente.

– Mas toda essa farra, ninguém percebia nada?

– Percebia, claro. Mas quando percebia, entrava para o esquema também. Cada um tinha a sua fatia do paraíso. Naquele tempo a gente vivia bêbado de uísque. E isso era, na verdade, era a perdição. Quando estávamos “de fogo” a gente fazia muita loucura. Tem muita história que se fosse contada acabaria coma vida de muita gente. Casamento, imagem… Tudo iria para a casa do caralho se visse a público.

– Conte uma história dessas, então.

– ha ha ha… “Vocês” são terríveis. Acendeu um cigarro e tragou profundamente de olhos bem fechados. Assumiu um tom vaidoso, pois, na verdade, se orgulhava de ter escapado impune de todas essas proezas. O olhar parecia cada vez mais perdidos na lembranças envoltas pela névoa da nicotina. Recobrou o fôlego e prosseguiu. Vamos lá, então. Essa já faz muito tempo e eu vou te contar para você ter uma noção de como o uísque e o dinheiro subiram à cabeça de todos.

– Certo. Confirmei numa rápida piscada de olhos.

– Estávamos todos em uma audiência pública num desses fins de mundo aqui do Estado. Fazia um calor do caralho, eu transprava feito um porco. Mas, apesar disso, a gente queria ajudar aquele povo. Na época, se não a memória deste velho não estiver enganada, íamos construir uma ponte e asfaltar um pedaço do vilarejo. Pra ajudar as pessoas, sabe. Pois bem, acabou a tal audiência e entramos no carro com ar condicionado. No caminho de volta para Vitória o “fulano” ligou para as amigas dele combinando um uisquezinho na cobertura dele. A gente foi pra lá e ficou “de fogo”. Todo mundo estava tão doido que pegamos um avião para São Paulo. Eu não me lembro por qual razão, exatamente. Só sei que de lá, fomos parar França! Fomos todos de primeira classe. Tudo regado à muito uísque e tratamento Vip, afinal, éramos políticos e as pessoas ainda tinham algum respeito pela gente. Fizemos uma farra danada por lá. Eu acordei no outro dia e perguntei: Mas que porra de lugar é esse? Não tinha a mínima idéia do que havia acontecido. Todos os quatro estavam muito doidos… Além do uísque tinha os dois que cheiravam. Aliás, muita gente cheirava naquela época. Dizem o Collor enfiava supositório de cocaína no cú durante a campanha eleitoral. Finalizou abrindo uma gargalhada soluçante.

– É difícil acreditar, comentei tentando conter a perplexidade. Mas realmente tudo isso existiu. Você está falando, não é? E o dinheiro, havia muito dinheiro vivo ou era tudo com os cartões?

– O dinheiro brotava vez ou outra. Não era nada regular, não. De vez enquando “cicrano” aparecia com um saco de dinheiro e dizia: “Pega aí um bocado que eu preciso ir embora logo”. E a gente pegava. Não sabia de onde vinha, mas a gente pegava e sabia que nada ia acontecer. No outro dia, quando nos encontrávamos no almoço eu perguntava: “Doutor, doutor, não tem outro saco daquele pra gente não?” e o “cicrano” respondia: “ha ha ha… Agora acabou. Mas qualquer hora aparece de novo”.

– Vocês não se sentiam culpados por roubar toda essa grana?

– Culpados? De maneira alguma. O Estado tinha e tem muita grana. E de mais a mais, a gente roubava, mas ajudava muita gente. Roubava mas promovíamos melhorias para o povo. Muita coisa hoje em Vitória foi construído na nossa época. Era um pouco pro povo e outro pouco “pra hipoteca”. Às vezes a gente era roubado também. Não existe raça pior do que o tal “laranja”. No final, eles sempre passam a te extorquir. E você tem que pagar. Vai fazer o quê? Matar o filho da puta? Dava vontade… mas não era certo.

– Você disse que sente saudades dessa época. Hoje não é assim?

– Hoje tudo está fodido. Tudo tem que ser muito bem feito. Tem a internet, tem o contribuinte que tá sempre em cima… a porra da “opinião pública”. Falava agora aos espasmos, com afeto, revolta e indignação. O dinheiro hoje é muito vigiado. Muita gente consegue fazer as sacanagens, mas leva muito mais tempo. Outra coisa que acabou com a gente foi a loucura. Uísque, cocaína, putas… a gente perdeu o foco.

De uma empoeirada maleta ele retira um livro igualmente antigo. Entre as páginas saca algumas fotografias da época. Celebridades, autoridades em colossais suítes munidos de lavados sorrisos. Os rostos nem parecem os mesmos. O silêncio toma conta do ambiente.

– Pois é, meu filho. A farra acabou. A gente hoje vive por aí, de pequenos golpes públicos com medo da “casa cair”. E isso é tudo que nos resta.

Percebo, então, que a despedida é iminente. Despeço-me deixando uma garrafa de uísque sobre a mesa. Atrás de mim, fecha-se a porta da suíte desbotada e repleta de decadência e solidão. Lá fora a chuva invade a noite. Penso antibioticamente: “O pulso ainda pulsa”.

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