As Playboys de minha vida

Por Fabricio Gimenes

Alguém disse por aí que a vida começa aos 40. Particularmente sempre achei uma época meio tardia  para começarmos a viver. Revirando a memória em busca de boas lembranças nestes tempos tão caóticos fez-se emergir a época do descobrimento. Antes mesmo da “primeira noite de um homem”, surge a “primeira playboy de um homem”. Longe dessa histeria financeira, dos crashs provocados pelos tempos modernos, a vida acontecia bem mais simples, num interior perdido, bem próximo da terrinha de Mário Prata. 

Ao contrário do que muitos citam, não foi a Adriane Galisteu que me fez descobrir o mundo como ele realmente poderia ser. Nem mesmo a Vera Fisher. Lembro como se fosse amanhã. Estudantes afoitos de um colégio católico correndo em disparada até a banca mais próxima. Ali, bem ao lado do cabaré gentilmente apelidado de “inferninho”, víamos o mundo de outra forma. Diferente do puritanismo ao qual estávamos habitualmente acostumados, distante das falas pausadas e religiosas das freiras que coordenavam nossa escola. Já no local comprávamos algumas revistas de quadrinhos “para fazer volume na sacola” e, de esquema com o vendedor, adquiríamos a sensação do momento. Quem deu a dica foi o avô de um amigo. Na calçada algum bêbado nos maldizia e as prostitutas riam de nossos olhares inexperientes. Na capa, em tons avermelhados, contemplávamos as curvas delgadas de Deborah Secco. O mundo se revelava mais belo à cada página. De alguma maneira eu sabia que me lembraria daquela cena por muito tempo.

Folhear uma Playboy, naquela época, era como se fossemos cúmplices de uma heresia. A nudez em nosso mundo de criação sempre foi vista como um pecado mortal… “Toda nudez será castigada”. Dos meus comparsas pouco me lembro. Muitos deles se perderam com o passar dos tempos e avanço da idade. Lembro apenas do que se sucedeu dali em diante em minha vida. Certa vez vi, num filme, Woody Allen confessando que convocava fervorosos menages à troir em suas noites consigo mesmo. Ah! Incontáveis orgias solitárias eu participei… Deborah Secco, Luma, Mel Lisboa… 

A influência do universo Playboy na vida de minha geração, creio, é ampla. Quando descobri este mundo as portas do céu (ou do inferno, diria minha avó) se abriram para mim. Os temas que sempre tivemos curiosidade de ler, as garotas que sempre quisemos ver, os carros que sempre sonhamos dirigir. Do alto de nossa pré-adolescência: o mundo que sempre quisemos viver. Parece masturbação (sem trocadilho) do ego masculino, mas, na verdade, era o mundo que girava ao nosso redor. 

Temo que nos dias atuais os garotos dessa nova geração não participem dessa busca proibida pelo descobrimento desse mundo. O advento da internet (o clichê é proposital) acabou com isso. Toda a poesia da coisa se esvaiu. É como comparar os carnavais da década de 40 – tão bem narrados por Jabor – com as micaretas de hoje em dia. Os filhos dessa nova geração não mais iniciam incipientes punhetinhas. Não. Esses novos cafajestezinhos querem o sexo carnal, o super-orgasmo, o êxtase apoteótico já na primeira vez… Ah! Se tivessem a noção de que o sexo de verdade não é como nas produções de Bruna Ferraz e Rita Cadilac… Se estes novos sabichões soubessem do que realmente se trata…

A verdade é que estou falando mal, sim, de toda essa liberdade que temos atualmente. Estou defendendo o conservadorismo? Depende do ponto de vista. O que quero dizer é que não há nada na vida como quebrar certas regras, mas se não existem mais regras, eu insisto, como vamos gozar (da vida)? 

2 Responses to “As Playboys de minha vida”


  1. 1 kcruz219 janeiro 3, 2009 às 6:43 pm

    também concordo com o fato dessa liberdade estar tirando um pouco da proibição que torna as coisas mais interessantes de se fazer,mas quanto a exposição dos corpos,tendo deixado de ser visto como uma vulgaridade,passsa a fazer parte como tantas outras coisas,como um(ou mais um)acessório da moda_e isso é deprimente…GOSTEI DA ABORDAGEM,O TEXTO TÁ MUITO BOM MESMO…consegui até visualizar as prostitutas rindo de seus olhares inexperientes…muito bom mesmo.

  2. 2 fabriciogimenes janeiro 3, 2009 às 7:34 pm

    Kcruz219,

    Esta semana conversava com um amigo e concordamos no seguinte: Os tempos são outros. Não há muito a fazer. Acho que se aplica bem ao texto.

    Obrigado pela visita, fico feliz que tenha gostado.
    Abraços,
    F.Gimenes


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