Textos categorizados 'Martin Scorsese'

Quero ser Jack Nicholson!

Ele detém o estigma de perverso por conta de seus papéis no cinema, mas não deixa absolutamente nada a desejar nas comédias que já fez. É um velho safado que “ainda não colocou em prática todas as fantasias que já passaram pela sua cabeça vazia”. Senhoras e Senhores: Jack Nicholson! Por Fabrício Gimenes 
Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61. Foto: Mathew Rolston
“Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61.” Foto: Mathew Rolston

 Bem do alto da monotonia de qualquer segunda-feira à noite, procuro entre a pilha de revistas alguma edição mais antiga (sempre leio revistas antigas). Entre Playboys, Vips e Superinteressantes, retiro, então, a edição 01 da Rolling Stone Brasil (outubro 2006). Na capa, bela capa devo dizer, está Gisele Bundchen  estampada com todo mérito como “A maior popstar brasileira”. Há também uma excelente matéria sobre Bob Dylan. Mas, a que salta aos olhos no primeiro instante é a reportagem com Jack Nicholson: Confissões de um velho safado.

Na ocasião da reportagem, assinada pelo jornalista Erik Hedegaard, Jack Nicholson estava prestes a estreiar o eletrizante longa Infiltrados, de Martin Scorsese. Jack, na ocasião, retornava ao que parece ser seu verdadeiro habitat: Personagens maus!

Entre um cigarro e outro, Jack revela sua personalidade hedonista, intimamente ligado ao sexo e tudo que pode compor tal cenário. Erik “arranca” dele ótimas declarações. Como no trecho a seguir:

(…) E, finalmente, temos as palavras preferidas de Jack para animar seu papo normal, do dia-a-dia, sendo que duas delas são pussy [xoxota] e cunt [boceta]. 

 “Adoro essas palavras!”, ele quase berra. “Quer dizer, no últimos tempos, poderia até perguntar para alguém: ‘Bom, olha, você sabe por que eu digo cunt ou pussy ou pookie [fofinha]?’ Mas gosto de poder dizer coisas como: ‘Cunt é uma sigla’. ‘Para quê?’ ‘Para can’t-understand-normal-thinking [não consigo entender o raciocínio normal].’ He, he, he. Mas, bom, claro que só invento isso para fazer piada. Mas o negócio é que simplesmente gosto dessas palavras, por acaso.”  

Ou neste trecho: 

“Faz um bom tempo que não estou comprometido, então tenho companhias variadas. Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61.”
  
“Sessenta e um?”

 “É, sou bonzinho com minhas amigas.” 

A entrevista prossegue com Jack divagando sobre o sexo atualmente e sobre o pânico de não ter realizado todas as fantasias que já se passaram pela sua cabeça vazia.

Jack Nicholson

Em verdade sempre me imaginei com o triplo da idade que hoje tenho ao escrever este blogue. Há algum tempo já cultuava admiração pela cara de maluco de Jack e pelos filmes que já o vi fazendo. Hoje na casa dos 70, o cara possui a verdade e a mentira anunciada no olhar. Detém o riso soberbo e sacana que seduz até mesmo as mais gélidas mulheres (Alguém tem que ceder)  e, para completar, possui o estilo de quem viveu as melhores épocas das melhores maneiras possíveis. Eu pergunto, por que não Jack Nicholson?

Existem também outras figuras, mais ou menos na mesma idade, igualmente inspiradoras. Mas todos inspiram à sua maneira, quase uma coisa de nicho. Jack, tanto na vida real, quanto em seus filmes, traz a efervescência do urgente contraposto com a calma de quem sabe muito bem o que, como e quando algo deve ser feito. Hoje tudo ficou claro. Eu, realmente, quero ser Jack Nicholson!

Para conferir toda a reportagem realizada pela Rolling Stone Brasil com o velho safado, basta clicar aqui

No direction home

Por Fabricio Gimenes

Assisti durante todo o final de semana o documentário “No Direction Home”, um filme de Martin Scorsese sobre a vida de Bob Dylan. O disco ficou lá, no DVD player, por todo o final de semana. Entre uma pausa e outra fui saboreando a história desse músico que eu nunca consegui compreender. Nunca entendi, por exemplo, o grunhido viceral de suas canções, o porquê aquela daquela voz nasalada fazer tanto sucesso? Isso nunca fez muito sentido para mim.

Like a complete unknown

"Like a complete unknown"

Como já era de se esperar logo na primeira cena me identifiquei. Dylan fala sobre a sensação de sentir-se um estrangeiro. De não saber para onde voltar, ou mesmo para onde ir. Minha veia beatnick pulsou forte frente à película. Durante todo o filme fui absorvendo o sentimento de Dylan. O fato de não pautar sua vida numa meta imutável – dinheiro, fama, etc. – e sim, vivê-la pela simples razão de sentir-se bem. Pela unívoca necessidade de dar vazão aos sentimentos. O que vem em seguida é consequência disso. Talvez por isso sua música tenha esse aspecto cru, não lapidado, algo que possui uma certa “ingenuidade” e pureza, sendo entregue a quem ouve da mesma forma como nasceu. Tais canções  são como aquele certo sentimento que não dá pra disfarçar, não dá para evitar ou esconder.

É interessante, também, ver as entrevistas prestadas por Dylan aos vorazes jornalistas da época. O cantor parece sempre distante e até desinteressado em todo aquele circo.

O fato é que Dylan apareceu numa época carente de certos porta-vozes, onde a música atingia mais que as paradas de sucesso – despertava sentimentos e emoções. Não que o próprio fizesse questão disso. Mas pela sua sinceridade ao fazer música, tornou-se um. Lembro do que o falecido escritor Norman Mailer, que vivenciou essa mesma época, disse certa vez numa entrevista pouco antes de partir para o lado de lá: “Antigamente a literatura era como um chamado”. Tanto eu, quanto o velho Norman sentimos falta disso. Cabe aqui perguntar: E hoje, qual é o nosso chamado?