FRANCISCO GRIJÓ: UM OLHAR SOBRE VITÓRIA

Entrevista concedida originalmente ao projeto Vitória no Centro. Um olhar panorâmico sobre Vitória e a revitalização do centro da capital.

Por Fabrício Gimenes

Fabrício - Grijó, pra começar a falar do Centro atual, precisamos falar do passado. Qual a sua relação com o Centro da capital? Você freqüentava o Centro de Vitória?

F.Grijó - Mais ou menos. A minha vida universitária começou aos 18 anos, como é a da maioria dos jovens. Eu só comecei a ir para o centro da cidade por conta de um bar, que se chamava Britz. O mais interessante é que peguei o Britz já na sua decadência, não freqüentei o bar nos anos 70. Lembro-me que a primeira vez que fui ao Britz foi em 1980, já na sua decadência, pois o bar fechou em 1982 se não me engano. Mesmo nessa fase final, me recordo que o Britz trazia um saudosismo muito grande para a rapaziada mais velha. Primos ou amigos que naquela época já estavam com seus 40 anos de idade.

Fabrício- O Britz era como um recanto cultural?

F.Grijó - Não só um recanto cultural, mas de certa maneira um recanto de resistência. Pessoas que se recusavam a entrar no estereótipo cultural vinculado no momento; jornalistas, músicos, escritores… Confesso a você que eu não peguei a efervescência cultural do centro, nem do Britz. Em compensação, no início dos anos 80 o centro da cidade ainda era alguma coisa, ainda tinha uma representatividade cultural. Havia ali uns bares próximos à Avenida Barão Monjardim que passaram a servir de reduto a alguns antigos freqüentadores do Britz. A ida do Britz para a praia do canto, já como restaurante, levou muita gente. Mas não simbolizava mais a mesma coisa e nem possuía mais a poesia de antigamente. O Centro da cidade sempre me chamou muita atenção, porque era, e ainda acho que é, um local muito menos violento do que são bairros como Jardim da Penha, Praia do canto, e outros.


Fabrício - Ao contrário do que a população acredita… 

F.Grijó - Exatamente. Eu me lembro que a gente andava de madrugada, duas, três horas da manhã pelas ruas do centro. Eu tinha um amigo, que a gente ficava disputando quem sabia mais nomes de ruas do Centro. Eu até hoje sei muito nome de ruas do Centro por conta disso. Mas o centro de Vitória sempre foi muito poético por causa da história que ele detém. Há cinqüenta anos, Jardim da Penha não existia, Praia do Canto e Bento Ferreira eram bairros somente residenciais. A efervescência cultural era no Centro.

Fabrício - A prefeitura de Vitória e outros grupos têm promovido uma revitalização do Centro da cidade. O que havia de mais importante e deve ser resgatado com essas ações?

F.Grijó - Eu acredito que essa vontade de um grupo de pessoas de revitalizar o Centro esteja muito ligada a esse saudosismo. Lembro-me que há algum tempo chegaram a fazer alguns bares lá nessa tentativa de revitalizar. Havia um bar chamado Antonio’s, cinco ou seis anos atrás, mas que já foi fechado também. Contudo, me parece que há um preconceito muito grande. Isso aí é sério, acho que é uma discussão que tem de ser feita. Veja bem, a elite é que puxa você. É a elite que diz se determinado lugar pode ser habitável ou não. Quando falo em elite, não se trata apenas de elite econômica não. Me refiro à elite intelectual também.

Fabrício - Você acha preciso que haja uma comprovação da elite para a promoção de determinado local?

F.Grijó - Exato. Eu não “demonizo” a mídia. Muita gente tem o discurso de que o que a mídia diz, o povo consome. Não, pelo contrário. Eu “demonizo” quem consome. Eu acho que o individuo é que deve fazer uma opção. Baseado nisso, eu acho que se a Elite não puxar o movimento, não haverá revitalização. O Café Literário, por exemplo. Trata-se de um evento altamente elitizado. Inclusive, ele está no espaço onde era o Hotel Majestic, que era um lugar altamente elitizado.

Fabrício - E o que falta então?

F.Grijó - Veja bem, acho que falta uma injeção de ânimo. As pessoas precisam entender que um quarteto de cordas no Carlos Gomes merece a mesma promoção – se não maior – que um show da Ivete Sangalo. Um show da Ivete movimenta nossa capital, 400 mil pessoas. Enquanto que não há uma mobilização da própria mídia a esse respeito para um quarteto de cordas ou para uma banda de Jazz. Egberto Gismonti esteve na FAFI, haviam 70 pessoas. Um dos maiores músicos do mundo para 70 pessoas. Agora Babado Novo, Calcinha Preta, MC Sapão, eventos na Pedreira, sempre lotados. Mas aí há um dado interessante, existe um público que está afim de entretenimento – sair com as garotas e pegar os rapazes – e existe um público que busca alguma coisa de verdade. Este, é bem menor. É este público que iria ao Centro da cidade assistir ao Café Literário, é o público que vai ao Centro assistir um quarteto de cordas. Agora, compensa economicamente este público? É um público muito pequeno.

Fabrício - A questão comercial está acima do elemento cultural, não acha?

F.Grijó - Não compensa o sujeito investir pra trazer um quarteto de cordas ou uma banda de Jazz, sabendo que o público que vai comparecer é um público extremamente pequeno. Egberto Gismonti foi uma decepção, maior prova do que digo.

Fabrício - Acha que essa postura acaba excluindo Vitória do eixo brasileiro de apresentações ?

F.Grijó - Claro, exatamente. O Tim Festival que vem aí, só vem até Vitória porque há muito dinheiro envolvido. E outra coisa, ele não vem para Vitória. Nossa cidade é um apêndice. Estamos no caminho, o festival passa por Vitória. Agora, se o público não comparecer, vai acabar, vai deixar de ser também. Então eu fico pensando assim: O cara que vai ao Tim Festival, faz parte do público de Jazz? Não, ele é público de música. Música de qualidade. Entendeu? Existe todo um glamour em cima disso aí. O que não existe em cima de Egberto Gismonti ou de um quarteto de cordas.

Fabrício - O Tim Festival só é sucesso por causa da presença da elite?

F.Grijó - Sem dúvidas. A elite vai, ela acaba carregando o público. Isso é muito grave. Porque tem que se criar uma cultura mesmo. O projeto Estação Porto, por exemplo, a elite de Vitória está indo para o Porto. Com isso está levando muita gente para lá. Porque é assim: A elite vai, aí o cara da coluna social do jornal também vai e o evento vira notícia. No dia seguinte a “dondoca” olha no jornal e pensa “eu não fui, mas vou no próximo”e acaba chamando as amigas, e isso vira uma bola de neve. Isso é bom para o produto, mas temos que nos perguntar: Até que ponto a gente tem que depender da elite pra poder fazer qualquer coisa? 

Fabrício - Grijó, hoje você freqüenta algum ponto do Centro da Cidade?

F.Grijó - Vou ao Café Literário, ao Carlos Gomes quando há alguma coisa bem legal e vou ao Centro da cidade pra visitar meu tio. Visito minha avó que também mora por ali. Na verdade, adoro andar por ali. Inclusive, meu romance novo (Histórias Curtas para Mariana M) se passa muito no Centro da Cidade e de Vitória de 1990 – coisas de 17 anos atrás –, não mudou muita coisa. Eu tenho uma ligação forte com o Centro, morei lá. Adoro conversar com o pessoal que fez o Centro de Vitória. Aqueles que pegaram a virada dos anos 70… Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó, Rogério Coimbra, essa rapaziada que curtiu a efervescência musical do Centro de Vitória.

Fabrício - Você acha que essa efervescência, sobretudo musical, do Centro de Vitória pode ser resgatada?

F.Grijó - Não sei, realmente não sei. As pessoas hoje não estão se importando com isso. Os caras estão se importando mais em simplesmente “pegar mulher”. Cem por cento dos heterossexuais masculinos que vão ao show da Ivete Sangalo, vão para ficar com as garotas. Do outro lado, oitenta por cento das heterossexuais femininas que vão, só o fazem para ficar com os rapazes. Quer dizer, vira tudo uma grande efervescência sexual. Eu não tenho nada contra o sexo. Pelo contrário, só tenho a favor. Mas veja, este tipo de evento, o qual eles chamam de “evento cultural”, não é evento cultural. Trata-se de música de fundo para as pessoas pularem e se beijarem. Se tirar a cantora e colocar apenas caixas de som, não fará diferença. Você não vai ver o cara ir ao Carlos Gomes, numa apresentação de uma orquestra, para “pegar as garotas”.

Fabrício - Além do Centro de Vitória, em nossa cidade há algum outro ponto que necessite de um olhar crítico para uma revitalização? 

F. Grijó - Olha só, eu não sei como funciona a política cultural aqui. Aliás, o Brasil não tem uma política cultural, não é só Vitória não. Porém, se há uma coisa que eu acho interessante é essa coisa do morro. Mas não com esse estigma de que morro é lugar de pobre, de traficante. Pode até ser. Veja bem, Vitória é uma Ilha, cheia de morros. Na verdade, uma cidade ganglionar. Eu acho que seria tão interessante que se criasse um centro cultural em Vitória. Algo poderoso, com investimento, um lugar onde as pessoas pudessem expor seus trabalhos, que não fosse pago. É necessário um espaço cultural onde as pessoas possam discutir cultura, e acima de tudo, expor o trabalho. O que falta hoje é isso, falta exposição. Muita gente produz, só não expõe.

Fabrício - Algo como o espaço Boca da Arte no Morro dos Alagoanos? 

F.Grijó - Porém maior. O Colégio UP tinha um centro cultural. Sobreviveu um ano e meio. Era uma coisa tímida, mas era um local onde qualquer pessoa podia expor seu trabalho. Houve teatro, dança, música, roda de capoeira, lançamento de livro, houve muita coisa. Infelizmente acabou porque a gente ficou sem espaço. Na verdade não estou aqui pra fazer propaganda, porém essa é a idéia. Porque não se fazer? Porque não há vontade política. É muito difícil você ter a propina na área cultural. É difícil ter o “jabazinho”. Agora é mais fácil você ter o jabá na obra. Então a idéia é por que não se cria uma política cultural? Paulo Hartung fala aos quatro cantos disso, João Coser do PT. Cadê a política cultural do Lula e do Gilberto Gil? Este é um artista que viveu pela cultura. Sofreu, levou porrada por essa causa. As esperanças que Gilberto Gil tivesse um papel mais decisivo eram grandes. Tudo isso é lamentável.

Fabrício - Grijó, quais diferenças você observa, como professor, nos jovens que saem hoje pra se divertir em relação aos jovens dos anos 80, até mesmo 90, no quesito programação cultural?

F.Grijó - É bem diferente. Claro que gostávamos do “rock’n’roll” para ficar com as garotas, óbvio. Porém, acho que até metade dos anos 80, ainda havia uma preocupação por parte da juventude em conhecer as coisas. Hoje ninguém quer conhecer nada. As pessoas estão sendo niveladas por baixo.Elas querem ser niveladas por baixo. O interesse das pessoas hoje, no fundo, é serem vistas de forma superficial. Ninguém quer ter compromisso com nada. Eu vejo isso dentro da sala de aula, eu lido com o público. Já gostei mais de lidar com esse público. Hoje estou um pouco intolerante. É um público que de uma turma de cem, dez pessoas querem alguma coisa. Isso aí é reflexo dos pais, o que acaba influenciando na hora do individuo fazer uma opção cultural entre Calcinha Preta, por exemplo, e Mozart.

Fabrício - Grijó, qual é o ponto que mais representa o centro de Vitória pra você? Falando em Centro, você pensa em que?

F.Grijó - Ladeira, Cidade Alta. Eu ainda vou morar por lá. Aliás, estou a procura de um apartamento por lá. Moro numa localização ótima, mas eu quero ir pro Centro. Praia do Canto e Jardim da Penha são bairros violentíssimos. Você vai no “triângulo” num sábado à noite, os adolescentes param o carro no meio da pista para você reclamar e eles brigarem com você. Isso não se vê no Centro.

Fabrício - Desde 2003, tramita no STJ um projeto de lei que prevê a extinção de anúncios externos no centro de Vitória, semelhante ao projeto “cidade limpa” adotado em São Paulo. O que você acha desta lei? 

F.Grijó - Tem que despoluir aquilo ali. Fala-se em poluição e as pessoas pensam somente em poeira ou coisas do tipo. Eu me lembro que existia um projeto, não sei se foi votado, para tirar 70% dos outdoors de Vitória. Os caras jogam com dinheiro pesado e a coisa nem vai para a votação na assembléia. Centro é memória. O Centro de Vitória não é uma vitrine para você vender produtos. Você leva seu avô ao Centro e ele não quer olhar para um lugar e ver uma placa de comércio quando ele sabia que aquilo ali era um teatro.

Fabrício - Você acha que o Centro de Vitória tem hoje a mesma representatividade para o Estado do Espírito Santo e para os capixabas como nos anos 70 e 80?

F.Grijó - Hoje não. Se quiser pode ter, mas tem que haver vontade política. Dia desses, estava indo para Vila Velha e resolvi passar em frente ao Shopping Vitória. Havia uma caravana de Cachoeiro do Itapemirim. Nunca havia visto isso antes. Na bienal do livro, eu não vi isso. Então o que acontece, o Shopping Vitória é a referência de Vitória para o interior do estado. Não é Praia de Camburi, não é CST, é Shopping Vitória. Então, hoje o Centro não é referência. O Centro de Vitória é hoje mal vendido. Ele não tem – porque não se quer que tenha – muita coisa a oferecer em termos comerciais, o grande catalisador de público. Partindo daí, não há interesse no Centro. Ganha-se muito dinheiro na zona norte (Praia do Canto, Camburi, etc.). Enquanto mantiverem o discurso de que “eu não vou investir porque não vai dar retorno” será uma bola de neve. Na verdade, um ciclo.. “Não invisto porque não dá dinheiro e não dá dinheiro porque não invisto”.

Fabrício - Não resta outra opção além da Política Cultural então?

F.Grijó - Não adianta mesmo. Por exemplo, o Centro Cultural Majestic. Acho que ele vai começar a morrer. A menos que se crie uma coisa bombástica, algo além do Café Literário. A menos que haja uma verdadeira injeção de ânimo, ele vai começar a morrer.

Fabrício - Você não acha que se a mídia se mobilizasse, veiculasse as informações culturais com força, já bastaria?

F.Grijó - Acho sim. Mas não é veículado. O “Caderno Dois”, por exemplo, aquilo ali é uma coisa medonha. Há aquele caderno especial, o “Fanzine”. Este só fala de umas bandas obscuras, nada que acrescente algo de verdade. Mas é aí que está quem é o culpado: quem produz ou quem consome? Só se produz o que vai vender. Se os jornalistas não fazem matéria sobre Chico Buarque, vão fazer sobre o Centro da Cidade? Agora, acho muito bacana esse trabalho que vocês estão fazendo. Você pode colocar o seu blog e o blog do projeto num verdadeiro tiroteio. Porque é uma discussão necessária. Quando criei meu blog, a idéia era, e é ainda, promover uma discussão cultural. Já que as pessoas não estão saindo, estão se fechando em casa, que elas vão para o computador e leiam uma matéria interessante, façam um comentário.

Fabrício - Grijó, para finalizar; Qual a sua dica de um bom programa no Centro da capital?

F.Grijó - Teatro Carlos Gomes, Teatro Glória – que será revitalizado e se tornará um centro cultural. Que este seja muito bem vindo e que Deus abençoe este centro cultural (risos). Vá ao Centro para tomar um caldo de cana. Vá pelo sábado de manhã. Pegue a namorada e faça um programa diferente, simples. Pare de passear de carro ou de ônibus e vá caminhar pelo Centro de nossa capital.

3 Respostas para “ENTREVISTAS”


  1. 1 Suzana Flor Janeiro 6, 2009 às 3:25 pm

    Assinado embaixo Grijó! Você está certissimo. O que é a Coluna B de A Gazeta? O cara só quer que todo mundo pense que ele “sabe” muito. Sabe nada, as bandas que ele cita como revelação só simplesmente imitam as nossas GRANDES bandas de 60/70 e algumas até de8 0…..nada mais….. O Fanzine também…não dá pra levar a sério!

    Adoraria falar mais sobre a música no Estado, Omelete Marginal, Solana e os Abreu!

    Vou aguardar uma oportunidade…..

    Suzana Flor

  2. 2 Dani Mart Janeiro 7, 2009 às 1:46 am

    Recomendo os barzinhos da rua Sete, o etc na Gama Rosa, a programação da Estação Porto (difícil é saber dela…rs), os projetos que acontecem no Carlos Gomes, o Parque Moscoso… Adoro o Centro de Vitória.

    Uma revitalização será super bem vinda.

    Parabéns pela iniciativa do blog e por essa entrevista gostosa de ler…


  1. 1 Sobre micaretas e cultura « .:São Botequim:. Trackback em Outubro 17, 2009 às 8:52 pm

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